Percurso: Barcelos (Pousada Fim da Picada), Lajinha, Tijuco Preto, Rio Ponte (Schwanz) e Domingos Martins

 (em 24/03/2022)

Devido aos percalsos do dia anterior, em que precisamos desviar-nos da nossa rota por quase sete quilômetros, a fim de encontrar hospedagem, hoje teríamos que acrescentar este mesmo tanto à jornada originalmente projetada e que, por si mesma, já não era nada pequena. Tudo somado, desde aqui da pousada Fim da Picada até chegar a Domingos Martins, nosso pretendido destino, precisaríamos pedalar por mais de 85 quilômetros, nos quais precisaríamos vencer um total de elevações de quase 1.200 metros.

Quando eu cheguei a estes totais assustadores, a partir da projeção feita com os mapas de navegação, pensei logo que tinha me enganado em alguma coisa. Afinal, o trajeto para Domingos Martins, apesar de longo, é descendente, no plano geral: aqui na partida, estamos a quase mil metros de altitude e nosso destino está marcado no mapa a pouco mais de 550 metros. Entretanto, não havia nenhuma dúvida. Apesar de precisarmos ultrapassar apenas uma serra mais importante, a meio do trajeto, a ela somariam-se miríades de pequenos e médios morros, ou seja, o caminho incluiria muitos e muitos altos e baixos, espalhados estrada afora, de modo que o total, inescapável, era aquele mesmo.

Com tais verdades, não muito animadoras, na cabeça, mas muita disposição para pedalar e embalados por um bom descanso, no conforto, e um café da manhã reforçado, deixamos a pousada para trás. Entretanto, o contraponto do bom descanso era ter dormido, talvez, um pouco demais, posto que nossa saída estava dando-se num horário um tanto tardio, para quem pretendia enfrentar uma jornada tão longa. Já eram perto das 10 horas da manhã, quando pegamos o acesso da Fim-da-Picada e começamos a voltar pelo caminho de onde viéramos na véspera, deslizando pelo estradão já seco, mas livre de poeira, em direção ao asfalto da rodovia estadual. Ela nos levaria, como sabe o leitor que nos acompanhou no episódio anterior, de volta ao mercado onde havíamos parado ontem, para pedir informações, e, na sequência, à frente da igreja de São Valentim, que ontem marcou o ponto em que abandonamos o traçado da Rota Imperial, para procurar pousada. Em seguida, cruzamos o acesso da estradinha do Rancho Pedra Azul – aquele que não quis nos hospedar na véspera – e então, finalmente, aventuramo-nos por terreno novo e desconhecido.

Dali alcançamos e cruzamos o discreto ribeirão Lajinha e seguimos, por alguns momentos, por terreno plano, onde logo parei, a fim de fotografar o Sérgio, enquanto ele passava, ligeiro, por uma gigantesca e frondosa árvore.

De volta ao trajeto correto da Rota Imperial (7km com 129m de elevação)

O tempo havia melhorado um pouco, em relação à véspera, e não parecia haver chance de mais chuvas, muito embora o céu permanecesse bastante carregado, mostrando apenas pequenas manchas de azul, num fundo bastante nublado. Por ali, quem sabe por estarmos passando bem perto da vila de Lagoinha, embora sem entrar nela, víamos um pouco mais de obras humanas: casas, pastos e muitas estradinhas vicinais. Gente, entretanto, não vi.

Casinha verde aos pés dos morros (8,1km com 155m de elevação)

A despeito dos cafezais, bananeiras e guapuruvus, que não nos deixavam esquecer de que estávamos bem dentro do Brasil, a arquitetura de algumas casas, ainda que permanecesse modesta, revelava inequívocos traços de influência da imigração européia, de modo que a paisagens, às vezes, tomava um indistinto ar da Pomerânia.

Guapuruvu “pelado” e casinha branca (8,3km com 159m de elevação)

Após completar a primeira dezena de quilômetros rodados, passamos por um bom trecho de mata nativa que, de repente, cedeu lugar a uma grande plantação de eucaliptos. A transição de mata nativa para reflorestamento não poderia ser mais evidente. A variedade de formas, cores e volumes dava lugar, repentinamente, à uniformidade. Traçava-se uma fronteira muito bem marcada, que formava um “v” agudo na encosta da montanha.

Mata nativa e eucaliptal formam fronteira de verdes (10km com 171m de elevação)

Mais adiante, quando já íamos nos aproximando do leito do rio Jucu Braço Norte (mais uma vez!), na altura do distrito do Baixo Lajinha, passamos em frente a uma casa de madeira, que era muito semelhante às construções que vemos, com frequência, nos estados do sul do Brasil, região que também tem uma grande influência das colônias alemãs e italianas.

Casa de madeira (12,9km com 186m de elevação)

Alcançamos o rio Jucu no momento em que vínhamos bordejando a encosta sinuosa e roliça de uma grande colina, num nível mais alto, de onde passamos a avistar um grande terreno de planície, coberto por pastos verde-claros, que eram cortados, de lado a lado, por uma faixa estreita, mais alta e escura, provável mata ciliar, que ocultava de nós o presumido Jucu, mas permitia-nos avistar, e muito bem, outras colinas, que se estendiam de forma graciosa, para lá da outra margem do rio.

Mata ciliar oculta o rio Jucu Braço Norte (13,4km com 197m de elevação)

Naquele mesmo instante, duas crianças saíram de uma casinha até então insuspeitada, num canto camuflado daquela pradaria, e vieram, em passo acelerado, até aos pés do talude íngreme, que os traria até à estrada. Subiram, então, por ali, com a agilidade que só se tem na infância, e passaram pela porteira de madeira que servia a interromper uma longa sequência de cerca de arames farpados, que demarcava os limites do leito do estradão. As crianças vinham a fim de aguardar a passagem do ônibus escolar, trazendo mochilas azuis estufadas por sabe-se lá quantos cadernos, livros e outros petreços de quem vai à escola. Curiosíssimos, perguntaram-me tudo – de onde vínhamos, para onde íamos, porque viajávamos de bicicleta etc. Eu quase não consegui espaço para perguntar e saber que eram irmãos, que cursavam a 5ª e a 8ª séries e que, sim, eu podia fotografá-los.

Dois irmãos aguardam o ônibus escolar (13,4km com 197m de elevação)

Logo adiante daqueles prados da planície, por onde vieram as crianças, havia extensos alagados, cujas águas estavam decoradas, ricamente, com as flores brancas e miúdas de alguma planta aquática, que eu não soube identificar. A água era barrenta, sim, mas não muito. Estava absolutamente calma e parada e, onde não se cobria de plantas e flores, espelhava as colinas circundantes e o céu nublado que reinava acima.

Alagados do rio Jucu Braço Norte (13,6km com 197m de elevação)

Sérgio, de novo, havia sumido de vista, porque não esperou-me terminar as fotos e a longa troca de informações que travei com os estudantes. Então, outra vez sozinho, pedalei por mais quase dois quilômetros, sempre acompanhando o rio Jucu e vendo os pastos dominarem as paisagens. Mais além, cheguei a uma área ainda descampada, mas pontilhada de pequenos trechos de mata e, às vezes, grandes eucaliptais, que marcavam com linhas interrompidas, as curvas suaves das colinas.

Igreja Luterana em Alto Jucu (15,1km com 224m de elevação)

À minha direita, havia uma igreja luterana – sinal de ser, aqui, colônia alemã, que eu poderia descrever, parafraseando Caetano Veloso, como um povoado de uma certa deselegância discreta. Do mesmo lado da estrada, um pouco adiante, via-se a massa compacta e homogênea do eucaliptal, cobrindo o alto de uma colina, como se fosse um topete bem aparado, e, à beira da estrada, uma pilha de troncos, cortados todos no mesmo tamanho, aguardando transporte.

Toras de eucalipto à beira da estrada (15,1km, alguns metros adiante da foto anterior, com 224m de elevação)

Confesso que senti um pouco a falta das matas, pelas quais passara, no trecho entre Lajinha e o Baixo Lajinha, mas é certo que esta região, cheia de fazendas e sítios – e, portanto, mais povoada –, também tem seus encantos.

Quaresmeiras e espatódea adiante (16,6km com 244m de elevação)

Ao aproximar-me do distrito de Cristo Rei, passei outra vez bem perto do curso do rio Jucu Braço Norte e pude vê-lo serpentear pelo fundo do vale, formando alguns alagados, que são sinais geográficos de variações no trajeto das águas, e mais e mais fazendas, com seus inevitáveis cafezais.

Fazenda e o rio Jucu Braço Norte (17,7km com 259m de elevação)

Ao completar 18 quilômetros de jornada, me distraí um pouco e perdi uma saída importante. Eu deveria virar à direita, numa encruzilhada, mas segui direto, em frente, e assim cheguei ao centro da comunidade do Cristo Rei. Percebendo, então, meu engano, fiz a meia volta, quando estava em frente à escola da comunidade, e retornei à rota correta, por onde segui, passando por entre inúmeras propriedades, casas bem simples e plantações.

Mais quaresmeiras na mata (19,2km com 288m de elevação)

Dali em diante, os cultivos alternavam-se com matas nativas, que ocupavam mormente as encostas mais inclinadas dos morros, menos próprias para plantação. O conjunto resultava bem mais harmonioso e agradável, pelo menos para o meu gosto, do que a mistura de pastos e eucaliptais que eu acabara de cruzar, antes de chegar à comunidade do Cristo Rei.

Nas proximidades das casas dos sitiantes, era comum ver espécies exóticas muito bem integradas à paisagem de matas nativas, como, por exemplo, num determinado sítio, em que uma grande espatódea dividia a beirada da estrada com uma quaresmeira florida, além de poder-se perceber, nos detalhes, a presença de pinheiros e palmeiras.

À sombra de espatódeas e quaresmeiras (20,2km com 294m de elevação)

Depois de pouco tempo, cheguei à grande cachoeira da Candelária, que tem este nome, provavelmente, por estar situada no ponto em que o córrego da Candelária deságua. Porém, as águas que se despejam ali, sobre rocha viva, são indubitavelmente as do rio Jucu. No remanso, que ele forma à base da queda-d’água, suas águas recebem o pouco que traz o Candelária e logo fazem uma curva fechada para a esquerda, formando um amplo arco, que a estrada abraça e acompanha, à distância segura.

Cachoeira da Candelária, rio Jucu (21,5km com 299m de elevação)

Ali há uma fazenda, que explora a agricultura, nas cercanias da queda d’água, e que não respeita, pelo que pude ver, a preservação da mata ciliar, que é, com certeza, obrigatória. Portanto, aí a lei foi descumprida. Numa das margens, o pasto estende-se até às pedras do rio, que, na outra margem, bordejam o eucaliptal, que é mata ciliar falsificada, exótica. Ao pé da cachoeira, deste lado de cá da curva fechada que faz o rio, plantaram o milharal até chegar ao limite das barrancas. Vê-se que, de fato, o abuso dos recursos naturais é um problema secular, que continua e projeta-se ao futuro, no Brasil.

Cachoeira do Jucu, outra vista (21,7km com 300m de elevação)

Minha parada seguinte foi no meio de uma ponte, por onde atravessei para o lado norte do rio Jucu. Deste ponto em diante, passei a afastar-me dele, para só reencontrá-lo vários quilômetros à frente, junto à curva acentuada que ele traça, muitos quilômetros adiante, perto do distrito de Barra do Pena. Foi o seguinte. Primeiro, segui na direção nordeste, acompanhando “veredas” menores, tributárias do grande Jucu, tais como o córrego de Cima e o da Lavra, caminho por onde fui seguindo até encontrar a vila urbana do Tijuco Preto, onde encontrei com o Sérgio. Ele me esperava à entrada de um restaurante, onde, juntos, almoçamos muito bem. Depois de um descanso merecido, saímos de lá e passamos por algumas comunidades rurais, de ocupação bem mais rarefeita, como Alto Areinha e Alto Rio Ponte, até que chegamos à vila de Rio Ponte (no distrito de Schwanz, aos 45,5 quilômetros do trajeto), onde fizemos uma curva fechada, virando em 90 graus, de nordeste para sudeste, e, juntos, descemos ao longo do curso do ribeirão Pena. Finalmente, revisitamos o Jucu, mas isso veio a acontecer, somente, no quilômetro 58 da viagem, quando chegamos ao cotovelo agudo, formado pelo rio, à altura da Barra do Pena.

Rio Jucu Braço Norte, visto da ponte (23,7km com 316m de elevação)

O trajeto que resumi acima desenha, aproximadamente, um triângulo no mapa, tendo por base o leito do rio Jucu Braço Norte. Para traçar os outros lados da figura, começamos na ponte que acabamos de cruzar; daí, fomos nos afastando do rio e passamos pelo vilarejo de Rio Ponte, local onde forma-se o seu vértice mais alto, e viramos em curva fechada, para passar a descer, o que passou a desenhar o terceiro lado, por onde seguimos até a Barra do Pena, local de reencontro com o Jucu, onde o triângulo se fechou.

Mas, recapitulemos, passo a passo, nosso triângulo imaginário.

Após um início em curva “s” suave, o traçado do lado da figura é caracterizado por uma estrada quase retilínea, que vai acompanhando um vale estreito e marcado por sua encosta íngreme, que termina numa grota profunda, no fundo da qual passa um pequeno afluente do ribeirão Tijuco Preto, córrego cujo nome não consta em nenhum dos mapas.

Vista da estrada, tendo um pequeno córrego, afluente do ribeirão Tijuco Preto, à direita (28,5km com 418m de elevação)

O vale prossegue na mesma toada, apontando, no geral, aproximadamente para a direção nordeste. Nesta sequência, passamos por um pequeno grupo de eucaliptos, onde vimos, em meio à ramaria, que havia um carcará jovem, pousado. Ele gritava e gritava, lá do seu galho, não sei porquê.

Carcará num ramo de eucalipto (29,3km com 434m de elevação)

Na parada que fiz, para fotografar o carcará, perdi, mais uma vez, a companhia do Sérgio. Paciência. Um pouco mais, eu sabia, já precisaria parar de novo. Desta vez, foi porque um novo afluente do ribeirão Tijuco Preto vinha se exibir, numa vistosa cascata, com rancho, prado e lago, tudo a seus pés.

Cachoeira fluindo para o ribeirão Tijuco Preto (31km com 472m de elevação)

Chegando próximo à vila do Tijuco Preto, havia uma igreja rodeada de palmeiras, no meio da mata. Conforme vejo, agora, nos mapas, era mais um templo de confissão Luterana.

Igreja luterana, do outro lado do ribeirão Tijuco Preto (31,7km com 510m de elevação)

A vila do Tijuco Preto surpreendeu-nos, por suas dimensões: é quase uma pequena cidade! Quando cheguei, passei pelo posto de combustíveis e, em seguida, encontrei o Sérgio, que estava me aguardando em frente a um estabelecimento espaçoso, mistura de padaria e mercearia, com restaurante, onde havia, no centro da loja, um console de refeições por peso, que cheirava muito bem. Havia lá comida alemã, um tanto abrasileirada: arroz e feijão, convivendo com chucrutes, carne de joelho de porco e macarrão. Para resumir, almoçamos muito bem.

Vila do Tijuco Preto (32km com 526m de elevação)

Na redondeza daquele restaurante, até mesmo os nomes dos estabelecimentos comerciais denunciavam a ascendência alemã, da população local. Em frente de onde estávamos, víamos a loja de variedades de nome “Liebmann” e, ao lado dela, um mercadinho de nome também alemão, com certeza, onde um garoto bem loiro, de chapéu amplo, de palha, entrou com sua mãe e, depois de receber nas mãos alguma coisa dada por ela (não consegui ver o que era), sentou-se na beirada da calçada, que era alta como um banco, para desfrutar calmamente do seu presente.

Garoto com presente que a mãe comprou nas mãos (32km com 526m de elevação)

Depois de um bom almoço, precisávamos seguir em frente, porque ainda havia muito chão a trilhar, se queríamos de fato chegar a Domingos Martins. E já se fazia tarde! Assim, após uma pequena sesta, que passamos a olhar o movimento da vila, partimos para o distrito de Alto Areinha, onde alcançaríamos a maior altitude do dia: 1.030 metros acima do nível do mar!

Distrito do Alto Areinha (37,3km com 662m de elevação)

Do Alto Areinha até o distrito do Alto Rio Ponte, foram mais cerca de 4 quilômetros, praticamente só de suaves descidas. Entretanto, ao chegar lá, só vimos um punhado de casas dispersas e chácaras isoladas. Aparentemente, esses distritos não têm nenhum centro urbano.

Vista da estrada, na altura do distrito de Alto Rio Ponte (41,3km com 690m de elevação)

Mais à frente, abriu-se uma majestosa vista para o vale do córrego da Lavra, que é pontilhado de matas nativas, exuberantes, além de eucaliptais e cafezais.

Vale do córrego da Lavra (43km com 706m de elevação)

E assim foi que, depois de mais de 45 quilômetros de jornada, chegamos a um pequeno trecho de pista asfaltada, onde viramos à direita e, deixando de conhecer o centro do vilarejo de Rio Ponte, que ficava à esquerda, mudamos radicalmente para a direção sudeste, que era rumo de retornar-se ao rio Jucu, de forma a traçar o terceiro e último lado do nosso triângulo!

Vila de Rio Ponte (Schwanz), ponto mais ao norte do dia (45,5km com 735m de elevação)

Logo à saída da vila, vimos mais uma cascata, cujas águas deslizavam pela rocha, um pouco abaixo da estrada, por trás de um bosque ralo de eucaliptos. O rio Ponte, que dá nome à vila, cruza-a e logo desce, em direção do rio Jucu, onde vai desaguar, depois de vários quilômetros de curso agitado, cheio de corredeiras, na descida das montanhas.

Cachoeirinha à saída da vila de Rio Ponte (45,7km com 735m de elevação)

Nós acompanhamos o curso do rio Ponte, por uma boa parte da descida. Neste caminho, passamos por uma bela chácara, com algumas casas de alvenaria, do lado direito da estrada, e uma linda sibipiruna.

Sítio com sibipiruna, à beira da estrada (48,3km com 742m de elevação)

No momento em que a estrada faz uma curva à direita, para seguir acompanhando o rio Ponte e chegar à vila a que ele dá nome, nós deixamos de segui-lo. Não completamos aquela curva e, ao invés disso, seguimos pela variante à esquerda, o que, na verdade, correspondia a seguir na mesma direção sudeste, que vínhamos seguindo desde a saída da vila de Rio Ponto.

Vista da estrada (50,8km com 814m de elevação)

Assim, interrompemos a sequência de descidas suaves, em que vínhamos, e passamos a subir por uma grande colina, onde encontramos paisagens diferentes, de novo com a presença benvinda das matas nativas. Numa curva sinuosa, bem no topo do aclive, avistamos, ao fundo da baixada, que se abria à direita da estrada, uma grande plantação, que era de alguma coisa que eu não soube identificar o quê.

Plantação nas encostas do vale (50,8km com 814m de elevação)

Seguiu-se uma sequência de outras colinas, do outro lado das quais voltamos a descer, e, a devido tempo, alcançamos o vale do alto ribeirão Pena, onde ainda encontrávamos grandes áreas de matas, que se alternavam com os inescapáveis cafezais.

Emergindo da mata para um cafezal (52,7km com 819m de elevação)

A esta altura, já tínhamos 53 quilômetros de percurso cumprido e passamos a acompanhar a descida do ribeirão Pena, numa área que, novamente, mostrava pouca densidade populacional. De quando em quando, porém, víamos alguma plantação, um ou outro pasto e, mais raramente, alguma casa.

Casa com espatódia (53km com 822m de elevação)

Numa última grande curva que o ribeirão descreve, antes dele desaguar no Jucu, passamos por grandes manchas de mata nativa. Como o céu estava se abrindo bastante, mostrando grandes áreas de azul, livre de nuvens, o sol passava a brilhar sem obstáculos e a destacar, com seus raios diretos, as flores roxas das quaresmeiras e o brilho prateado das grandes folhas das embaúbas.

Embaúbas e quaresmeiras na serra (55,7km com 827m de elevação)

Neste trecho final do ribeirão Pena, encontramos também longos trechos de estrada onde a sombra da mata, projetada sobre o caminho, trazia nossa sensação térmica para alguns graus abaixo da temperatura real, que corria acima dos 26ºC.

Mata secundária ao redor da estrada (55,7km com 827m de elevação)

Ao lado da barra do Pena e passando, agora, dos 58 quilômetros de trajeto, reencontramos o rio Jucu Braço Norte e suas caudalosas corredeiras. Assim fechávamos nosso grande triângulo, que havia começado naquela ponte, que cruzamos logo após passar pela cachoeira da Candelária, havia subido ao vértice mais alto, na vila de Rio Ponte, e retornado à base do Jucu, aqui no cotovelo da Barra do Pena.

Reencontro com o rio Jucu Braço Norte (58,2km com 840m de elevação)

O vale por onde corre este lindo rio aqui se estreita, formando barrancas e margens mais íngremes e sempre cobertas por densas matas. Como resultado dessa nova configuração, além de desfrutarmos de uma paisagem mais movimentada, com um incessante sobe-e-desce de morros, de afastamentos temporários e logo novas vistas das suas lindas corredeiras, tínhamos também mais sombras, na média, sobre a estrada. Em compensação, em mais lugares, éramos privados de ver as águas agitadas do rio, ocultas pela vegetação ou pelo desenho das encostas íngremes, embora sempre o soubéssemos bem próximo, no fundo da calha estreita do vale, que nunca deixava de estar ao nosso lado.

Luz e sombra sobre a estrada (58,4km com 841m de elevação)

Em certas ocasiões, outrossim, o caminho se aproximava tanto do leito do rio que, num descuido, podíamos até cair nele.

Vista do rio Jucu Braço Norte (59,4km com 859m de elevação)

E por assim seguimos, por muitos quilômetros, ora beirando o rio, em estrada plana, ora subindo e descendo encosta, para encurtar o caminho, ao longo de alguma curva mais alargada de seu curso, quando era ocasião para, do alto e no seio da mata, presenciar melhor a beleza das árvores esculturais.

Árvore escultural (60,2km com 880m de elevação)

Depois dos 60 quilômetros de jornada, acentuou-se bastante a cota de descida do rio e as corredeiras passaram a ficar mais agitadas e sonoras. Faziam um espetáculo digno de parar-se para ver.

Corredeiras no rio Jucu (61,4km com 888m de elevação)

Mais adiante, num trecho de remanso do rio, reencontrei o Sérgio, que havia se adiantado, enquanto eu fazia fotos. Ele me aguardava apoiado na bicicleta, junto ao gradil de uma ponte que, entretanto, não era nosso caminho cruzar, embora eu visse, pelo mapa do GPS, que ela levaria a uma possível rota alternativa, para chegar a Domingos Martins.

Ponte que não cruzamos (62,4km com 897m de elevação)

Daí para a frente, aparentemente, o ritmo de descida do Jucu arrefecia-se. Ele passava a correr um pouco mais tranquilo e, num determinado ponto, formou até uma pequena ilha fluvial.

Pequena ilha fluvial (63,9km com 929m de elevação)

Abaixo dali, num outro remanso, havia muitos pastos, na maior parte deles, vazios. Por ali, vimos somente um par de cavalos, que chegavam à beira das águas, para beber.

Cavalos bebendo do rio (64,6km com 931m de elevação)

Achei curioso, encontrar ali uma bela plantação de palmitos, cultura inusitada, pelo menos pelo que já tínhamos visto na viagem, até então.

Uma curva do rio com plantação do palmito (64,6km, alguns metros abaixo da foto anterior, com 931m de elevação)

E, mais adiante, afinal, avistamos algum gado – pouco – pastando nas proximidades do rio.

Pasto tranquilo na curva do rio (65,1km com 937m de elevação)

Quando cheguei perto de completar 67 quilômetros de percurso, encontrei outra ponte que cruzava o rio Jucu, mas que também não fazia parte do nosso trajeto. Como o Sérgio havia se adiantado de novo e não tínhamos compromisso de hora ou lugar marcados, resolvi seguir minha vontade e me aventurar. Cruzei a tal ponte, saindo do caminho, só para ver o que havia naquela outra estrada, que seguia em paralelo, ao longo da outra margem do rio. Prossegui um pouco por lá, explorando, mas, não encontrando nada de inusitado, resolvi logo voltar ao nosso caminho planejado.

Momentos depois, cheguei aos 70 quilômetros e dobrei à esquerda, afastando-me do rio. Lá encontrei estrada pavimentada. Era asfalto velho e cheio de buracos, mas não era chão.

Asfalto, na chegada ao distrito de Pedra Branca (70,2km com 985m de elevação)

A estrada seguia ao lado do córrego Pedra Branca, que dá nome ao distrito local. Ao final de um longo retão, a pista faz uma curva comprida e alargada, enveredando-se pelo estreito espaço que há, entre uma lagoa cercada de alambrado e uma grande rocha de granito escuro.

Estrada desvia-se e contorna uma enorme rocha (70,7km com 988m de elevação)

Então, à marca de 71,5 quilômetros e sem nenhuma razão aparente, o asfalto termina e a estrada segue, em piso de chão, passando a subir francamente, enquanto vai contornando grandes colinas.

Acaba o asfalto como começou, sem razão aparente (71,5km com 1.002m de elevação)

No ápice deste trecho de subidas, com 72,7km de trajeto, acumulavam-se 1.050m de elevação, conforme verifiquei no GPS. Acima da mata fechada, que havia ao lado da estrada, uma enormidade de pássaros circulava, marcando suas silhuetas pelos ares, desenhadas contra o fundo cinzento das nuvens que, de novo, ocupavam todo o pano do céu.

Revoada de pássaros sobre a mata (72,7km com 1.050m de elevação)

Com pouco mais de 74 quilômetros, cheguei à rodovia estadual, que é asfaltada e leva em direção à cidade de Domingos Martins, conforme o curso do rio do Chapéu. Por volta deste local, encontrei-me, de novo, com o Sérgio, que me aguardava em pé, ao lado de um dos marcos da Rota Imperial.

Chegada à rodovia estadual ES-465 (74,1km com 1.061m de elevação)

Então, fomos seguindo por esta estrada e, depois de 75 quilômetros rodados, passamos pelo local onde o rio do Chapéu deságua no Jucu Braço Norte. Logo depois disso, vimos mais corredeiras no rio Jucu, maravilhosas como sempre.

Mais corredeiras no rio Jucu (76,4km com 1.070m de elevação)

E foi antes de completarmos 80 quilômetros, que cruzamos o rio Jucu e nos afastamos de suas margens, para seguir em direção à cidade de Domingos Martins. A entrada da ponte, que faz esta travessia, é o local onde a Rota Imperial, no curso de chegada ao litoral, bifurca-se em dois traçados alternativos.

O traçado mais antigo – que não escolhemos trilhar desta vez – segue ao largo da ponte, sem cruzar o rio. Entretanto, logo se afasta também dele, só que, neste caso, tomando a direção norte e seguindo o traçado primeiro da Rota Imperial, que acompanha o curso do rio Galo, por grande parte de sua extensão, e, ao final, termina desembocando na cidade de Santa Leopoldina, bem ao norte de Vitória e distante do litoral.

A fim de rever o Atlântico e seguir até o marco zero, assim designado pelos planejadores da Rota Imperial moderna, nós optamos pelo outro caminho. Atravessamos a ponte sobre o Jucu e seguimos pelo ramal alternativo da Rota Imperial, aquele que foi construído um pouco depois de já inaugurado o trecho original de Santa Leopoldina, mas ainda no tempo do império, e que leva a Domingos Martins e, no final de tudo, a Vitória e Vila Velha. Este ramal mais novo da Rota Imperial, adotado oficialmente, por ocasião da colocação dos marcos da Rota Imperial, corresponde à atual Rodovia Estadual Floriano Emílio Guilherme Berger. Ele acompanha o curso do córrego Valão do Galo, em toda a extensão, até chegar a Domingos Martins.

O ramal que escolhemos tem um inconveniente: a rodovia é asfaltada, em toda sua extensão, e tem um movimento significativo de veículos, sem acostamentos. Mas, foi o que enfrentamos, por escolha consciente. Afinal, eram somente 7 quilômetros de trânsito de veículos, que enfrentamos com galhardia, sem grandes ou pequenos problemas.

Chegamos ao centro urbano de Domingos Martins quando já estava anoitecendo e a iluminação pública já estava sendo acendida. Uma pesada neblina pendia sobre as montanhas e eu me surpreendi ao ler, no registro do GPS, um acumulado absurdo, de 1.186 metros de elevação.

Chegada a Domingos Martins, já anoitecendo (85,5km com 1.186m de elevação)

Domingos Martins, pelo pouco que pudemos conhecer, parece cumprir o mesmo papel de estância climática que, para São Paulo, desempenha Campos do Jordão, ou, para o Rio de Janeiro, desempenha Petrópolis. É uma pequena cidade turística, com clima de serra, frequentada pelas classes média e alta da capital que fica próxima. Como consequência, dentre outros, inflam os preços, inclusive os de hospedagem, que são bem mais altos que no resto da sua região. Por isso, seguimos rodando pelas ruas da cidade, em busca de uma pousada que, ao mesmo tempo, ficasse próxima do centro, mas também não estourasse nossos magros orçamentos de viagem.

Ao final, considerando que as prioridades de momento e o respectivos orçamentos fossem bem diversos, fomos levados a aceitar uma solução de compromisso. Na verdade, duas soluções, uma de acordo com a necessidade de cada um. Sérgio optou por uma pousada mais simples, com uma respeitável sequência de escadarias para se poder chegar ao quarto, coisa que não me apeteceu, nem um pouco. Da minha parte, declinei de acompanhá-lo, principalmente porque, depois de um esforço tão extremo como o que encontramos nos últimos dias, eu queria mais é conforto. Escolhi, então, pelo Google Maps, uma pousada que estava instalada num antigo casarão e tinha suítes… no térreo! A pousada Casa Amarela também ficava próxima, mas um pouco fora do maior burburinho do centro da cidade. Fui até lá e resolvi ficar. Na frente do casarão, encerrei o percurso no GPS: registrava um total de 86,4 quilômetros e 1.199 metros de elevação acumulada. E eram 18:15 horas da tarde. Acabou, ufa!

Depois de tomar um bom banho, conversei com o Sérgio pelo celular e combinamos encontrar para o jantar na esquina da “Rua do Lazer”, que é uma área de calçadão, de cerca de dois quarteirões de comprimento, repleta de bares e restaurantes, bem no centro turístico da cidade. Fomos, os dois à pé, cada um saindo da sua respectiva pousada, e nos encontramos numa das extremidades da Rua do Lazer, bem ao lado de uma interessante estátua, que representava um alemão obeso, em roupas típicas do Tirol. Dali, seguimos pela rua adentro, a fim de escolhermos um restaurante para jantar.

Como é comum – e bem o sabe, quem conhece meu amigo Sérgio –, acabamos optando por uma pizzaria! Ela anunciava uma pizza e um chopp grátis, na compra de um mesmo par. E valeu a pena: tanto a pizza, como o chopp, eram muito bons!

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