Passa Quatro, para mim, é a grande capital do mountain bike no sul de Minas. Já trilhei praticamente todas as estradas de chão que passam por lá, algumas delas muitas vezes, mas não me canso de voltar e tentar novas combinações e circuitos. Com isto, me habituei também com os caminhos que levam e trazem das cidades próximas: Itanhandu, Virgínia, Itamonte, Marmelópolis, São Sebastião do Rio Verde.

Preso ao compromisso de trilhar com rigor o trajeto do Caminho Velho e lembrando que apenas há três semanas eu havia deixado esta “capital”, em direção de Itanhandu, pela velha ponte ferroviária, desta vez tomei o caminho paralelo, pela ponte em arcada, que fica apenas algumas dezenas de metros rio abaixo e é a via indicada pelos marcos da Estrada Real.

Parti às 7:35h, peguei a avenida paralela à linha do trem, sentido Itanhandu e, uns quinze minutos depois, parei no alto do arco da ponte para admirar seu par ferroviário, que se mostrava brilhante, ao sol da manhã.

Ponte ferroviária sobre o rio Passa Quatro

Neste ínterim, ouvi uns arrulhos de pássaros, de um tipo particular, que eu já conhecia das minhas andanças pelo cerrado: sorocoró (Mesembrinibis cayennensis), um pássaro grande com longo bico recurvado, aparentado às curicacas e adaptado, como todas elas, à captura de pequenos animais aquáticos e criaturas do lodo de lagoas e riachos rasos. Não tardei a localizar. Era um simpático casal de sorocorós, que se abrigava nos galhos das mamoneiras que, neste trecho do rio, se apinhavam nas duas margens.

Seguindo em frente, desci da ponte e virei à esquerda, para pegar a estrada de chão paralela, que segue o traçado da velha linha de trem. A estrada segue por alguns quilômetros em terra, mas logo ganha pavimento de bloquetes de cimento, tendo à esquerda sempre os trilhos enferrujados.

Nesta ocasião, um desfile de ipês brancos floridos me enchia as vistas, de tempos em tempos, pontuando a paisagem de flores brancas, às vezes num tom levemente rosado, inclusive na chegada a Itanhandu.

Acima, alguns dos ipês brancos ao longo da estrada Passa Quatro a Itanhandu
Acima alguns dos ipês floridos na área pública correspondente à antiga ferrovia, zona urbana de Itanhandu
Ipê branco na aproximação da estação ferroviária de Itanhandu

Ao meio do caminho para Itanhandu, com 5,2 km rodados, termina o calçamento e a estrada continua em terra. Mais 3 km e a estrada passa pelo meio das instalações de uma grande granja produtora de ovos, na verdade a segunda que cruzamos neste trajeto, e que não será a última.

Aos 10,2 km, chegamos a Itanhandu, tendo subido somente 44m. Então, saímos ligeiramente do trajeto da ER, seguindo em direção à estação ferroviária, defronte da qual há o Hotel Casarão, ponto de carimbo do passaporte ER. O local, além de ter interesse histórico, pela presença da estação, é também endereço do mais lindo palacete da redondeza, que brilha, quase em frente ao hotel.

Casarão antigo, próximo à estação ferroviária de Itanhandu, defronte ao Hotel Casarão.

Colhido o carimbo, voltei ao traçado da ER e deixei a cidade, agora com destino a Itamonte, o que requer uma pequena digressão, se o leitor ou leitora fizer a gentileza de me acompanhar. De Passa Quatro a Itanhandu, a estrada segue o traçado do rio, que é o mesmo que fora adotado, depois, pela ferrovia. Daí, para seguir até Pouso Alto, existe um caminho muito mais curto, direto e plano do que passar por Itamonte. Na verdade, você poderá constatar pelo mapa que passar por Itamonte significa um desvio de rumo que não faz o menor sentido, ainda mais considerando que a passagem significa atravessar de ida e de volta um punhado se serras que acumulam, ao todo, mais de 700 metros (desnecessários) de elevação. Como não há nenhum obstáculo geográfico para o caminho direto de Itanhandu a Pouso Alto, há fortes motivos para desconfiar de que este deveria ser o trajeto original da ER. Nesta hipótese, os traçados entre Itanhandu e Itamonte e desta a Pouso Alto nada mais seriam do que ramais secundários da estrada principal, destinados ao escoamento de suprimentos e bens produzidos na região para abastecer a atividade mineira. A ER, como é logicamente irrecorrível, devia seguir o curso do Passa Quatro e, depois, do Rio Verde, como fez, depois, a ferrovia.

Traçado oficial da ER (exceto extensão em Itamonte, em forma de gancho, para obter carimbo)

A despeito destas evidências em contrário, adotamos por correto o traçado proposto pelo Instituto Estrada Real e seguimos a Itamonte, por estrada pavimentada de lajotas, por uns 800m, quando tomamos a esquerda, para estrada de chão e mais uma granja, onde se podia presenciar a situação das pobres poedeiras.

Galinhas num galpão de granja de produção de ovos.

O estradão era bem sombreado e como às elevações, por aqui, não eram excessivas, com um longo trecho de descidas, até além do km 18 do percurso, eu desfrutava do passeio no frescor das sombras.

Estradão do início do percurso para Itamonte

E foi no final deste trecho descendente que encontrei um cavaleiro que se preparava para seguir caminho, conforme registrei em imagens.

Cavaleiro na estrada de Itamonte

Um pouco adiante, numa abertura da mata circundante, avistei um casario, lá em baixo, nas prováveis cercanias de Itamonte.

Vista do vale, na direção de Itamonte

De fato, ao completar 21 km e 228m de elevação acumulada, cheguei ao casario que era, realmente, parte de Itamonte, e onde voltava a haver pavimento de lajotas. Significativamente, os morros na redondeza da área urbana eram pelados, num contraste gritante com a mata da serra precedente.

Segui por mais uns 2km e cheguei à Casa da Cultura Liberato Torino que, supostamente, deveria estar aberta há mais de uma hora. Portão com cadeado e janelas fechadas: não havia ninguém. O serviço público é uma das maravilhas do Brasil!

Sem outra opção, resolvi seguir para a única outra alternativa de conseguir o carimbo, um hotel fazenda localizado a 2,7km dali, fora do trajeto da ER, o que significava, ida e volta, 5,4km e 80m de elevação a mais. Como há males que vêm para bem, ganhei a oportunidade de conhecer boas pessoas e um estória ainda melhor.

Dona Nanci dirigiu o hotel fazenda com seu marido, conhecido como Espanhol, até que ele faleceu. Então, viúva, ela resolveu doar as instalações hoteleiras às missões da igreja presbiteriana que frequentavam. Desde então, Nanci e sua amiga Rosana recebem hóspedes da ER nos quartos da casa da fazenda que conservaram, com alegria, hospitalidade e um bom dedo de prosa. Recomendo.

Hotel Fazenda Recanto dos Lagos, em Itamonte

Na volta da fazenda, cruzei com carro de boi, condutor e cavaleiro, a quem perguntei se os bezerros novinhos já puxavam o carro. Riram e disseram: —Não, por enquanto só estão a passeio.

90 carro de bois, saída  de Itamonte
Carro de bois e cavaleiro

Com este desvio inesperado, que desenhou um tipo de “vírgula” sobre o “o” de Itamonte, no mapa mostrado mais acima, eu já registrava 30,4km, com 301m de elevação acumulada, ao deixar Itamonte. E a maior aventura do dia não tinha nem começado.

Saí de Itamonte com destino a São Sebastião do Rio Verde e, daí, a Pouso Alto, segmento da ER que tem trechos coincidentes com o Caminho dos Anjos e não pode ser feito de carro, posto que há uma travessia de ribeirão que não tem ponte e não é viável nem para 4×4. Começa o trajeto pelo asfalto, estrada para Alagoa, cidade que compõe o Caminho dos Anjos, mas não a ER.

Estrada que leva de Itamonte a Alagoa

Com bastante calor, sol a pino e o asfalto quente, ainda havia uma subida interminável, que ia se espraiando por entre os morros. Sem muita sinalização, nem acostamento, considero um trecho difícil e perigoso para o ciclista. Para compensar, a paisagem é rica. Matas, morros e fazendas vão se revelando à medida que subimos.

Quatro quilômetros e meio de subidas adiante, avisto um marco da ER que indica saída para estrada de chão à esquerda, numa porteira que comunica que a estrada que aí inicia é sem saída, devido à falta de ponte que já comentei. Como não estou de carro (rs), abro a porteira e avanço.

Estou nos 34,7km rodados do dia, com 425m de elevação, mas logo a estrada após a porteira começa a ficar íngreme e vai crescendo rapidamente neste quesito. No meio do subidão, paro para registrar um pequeno e sua crista, e sigo subindo.

Pássaro negro descansa na cerca

A subida se torna um absurdo. Impossível pedalar em inclinações que, facilmente, passam dos 20% de inclinação, como neste trecho em curva, que era difícil de subir mesmo caminhando.

Subida muito íngreme, com grau de inclinação maior que 20%

Em apenas 500m de subida eu já havia ganhado 70m de elevação, numa inclinação média de 14%. Eu nunca tinha visto isto em nenhum outro lugar. Parei para contemplar o vale e a rodovia, de onde eu tinha começado a subir, e registrei o fundo do vale, com a casa da fazenda onde fica a porteira com o aviso de falta de ponte e a rodovia que vai a Alagoa.

Fazenda de onde iniciei a subida em terra

Depois, virei para trás e registrei o que via, na parte já percorrida da subida.

Segui subindo e, aos 35,9km, com 523m de elevação acumulada, atingi o ponto mais alto desta serra, de onde podia avistar um marco, no meio do nada, e uma mata exuberante nas montanhas atrás.

Marco da ER no início da descida para o Ribeirão da Coura

Depois de uma subida insana, nada como uma descida insana! E é o que temos. O vale do Ribeirão da Coura, que se descortina por obra dos solavancos da trilha de descida desmedida, é uma coisa linda.

Lá embaixo, após cruzar um grande pasto, com bom número de zebuínos, por ali espalhados, alcanço o ponto de travessia do ribeirão. Agora, não tem jeito, é preciso cruza-lo.

Entro nele à pé, sem descalçar as sapatilhas e carregando a bicicleta com os alforjes. Como a correnteza é calma e raso o curso d’água, aproveito para lavar a corrente e as engrenagens da bicicleta do pó denso das estradas. Do outro lado, descanso a poderosa na porteira, para repetir a foto que, em 2.018, fiz com outra bike e outra direção do percurso.

Minha bicicleta, após o banho de rio

Aos 37,7km de percurso eu vinha descendo ao lado do ribeirão, que ora se afastava, escondendo-se na mata, ora se mostrava um pouco, em alguma abertura da vegetação. Neste sítio, havia o som forte e inconfundível de uma queda d’água. Parei numa entrada de trilha, prendi a bicicleta numa árvore, colei um adesivo da viagem no tronco, e desci, em busca da pressentida cachoeira.

E ela era linda, grande, com um poço profundo, onde as águas caiam com um belo estrondo.

Procurei um bom lugar de sombra, em frente à queda e, sendo por volta de 12:30h, abri o meu lanche do dia, como usual trazendo, por prato principal, um sanduíche de queijo minas, montado durante o café da manhã.

Depois de uma meia hora de descanso, olhos cheios de paisagem e barriga abastecida, soltei a poderosa e desci pela estrada, que volteava, seguindo a descida do ribeirão, no meio da mata, com suas sombras e frescor. Em pontos espalhados da mata, havia uma profusão de flores amarelas, que completavam o quadro. Que lugar bonito!

Como nem tudo são flores, lembro de contar que, na parada da cachoeira, notei a perda de um pé das minhas sandálias, que eu havia prendido à parte externa do alforge de selim. Recordo também que, ao final desta parte florida, havia mais uma granja desengonçada e feia, creio que a terceira que passei neste dia.

Granja ao final da estrada do ribeirão da Coura

Depois, mais um estradão de chão, novas subidas e muito, mas muito sol na cabeça e até uma bela porteira de haras, que anunciava a criação de animais da raça mangalarga marchador.

Entrada do horas C3

Após 44km, eu havia subido mais de 640m e ainda faltava muito. Avistei, abaixo, uma pequena vila, que depois identifiquei como sendo, provavelmente, Vila Capivari, já que quase tudo nela tinha este nome.

Santana do Capivari vista ao longe

O nome correto, depois descobri, era Santana do Capivari, e havia nela uma igrejinha bem simpática.

Passando adiante, cruzei a ponte sobre um rio que, a despeito de toda a lógica e todas as evidências, não se chamava Capivari, mas Rio Verde.

Rio Verde

E cerca de 300m depois, voltei a cruzar a velha linha do trem, aquela que seguiu o curso da Estrada Real, até Itanhandu, e daí seguiu o caminho lógico, acompanhando o fundo de vale do Passa Quatro, depois do Rio Verde, onde o primeiro deságua, até chegar aqui.

Cruzamento da linha férrea, após Santana do Capivari e o rio Verde

Depois de mais chão, aos 52,8km rodados e 846m de ganho de elevação, cheguei à rodovia que liga Virgínia a Pouso Alto. Peguei à direita e segui pelo canto da banda de rodagem. Não havia acostamento.

Cerca de 2 desagradáveis quilômetros de asfalto depois, cheguei a São Sebastião do Rio Verde.

Igreja de Sāo Sebastião do Rio Verde

Resolvi entrar um pouco nesta pequena cidade para tomar um refrigerante e aproveitei para fotografar a antiga estação ferroviária.

Depois do refresco, mais asfalto, carros e caminhões passando ao lado (nem todos educados para compartilhar a estrada), e, aos 57,3km rodados, com 910m de elevação acumulada, cheguei a Pouso Alto, onde se encerrava este longo e venturoso dia.

Ponte em arcos, Pouso Alto, MG

Mas, opa!, não acabou. Ainda havia mais uma subida, para chegar à pousada e o merecido descanso. E, por estender a jornada aos 58km de trajeto e 945m de elevação acumulada, ganhei esta bela vista, da janela do quarto.

E um por do sol para ninguém botar defeito.


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