A Serra da Bocaina não é para amadores. Uma única subida nos leva à divisa de estados, após vencer um desnível de 1.455m. Como se pode ver nos registros de GPS abaixo, o único refresco é um pequeno declive (2m), após 910m escalados, em menos de 10km. Depois, fica por isto até o topo. Se você não estiver muito bem preparado, nem tente.

Instantâneas do Gps a 8,11Km, 9,91Km e no topo da serra, 16,64Km (tempo decorrido: 05:32h).

Mas, comecemos do princípio. Meus amigos, Augusto e Cacá me deram carona, de Ubatuba para Paraty, onde chegamos por volta de 9:15h. No posto de informações turísticas, logo na entrada do centro histórico, peguei meu segundo passaporte da ER. O primeiro estava quase cheio.

Depois eles me levaram até o bairro da Ponte Branca, logo após a ponte que lhe empresta o nome, cerca de 4,5 km do centro, onde inicia a subida da serra. A carona não foi motivada por razões ciclísticas, mas de segurança, para evitar o risco, que nem sei se de fato existe, da periferia de Paraty.

Augusto e Cacá posando com a minha bike, pronta para partir.

Subida infindável

A subida da Serra da Bocaina, a partir de Paraty alterna trechos pedaláveis e trechos “empurráveis”. Desprezado o pequeno patamar, que desce 2m para a tomada de uma ponte, aos 9,91km, é uma subida única de 1.955m de elevação em 16,64Km. Numa situação como esta, a única solução é respeitar o seu ritmo, fazer pausas regulares para retomar o fôlego… e empurrar a bike, quando é preciso. Nas pausas, há toda a beleza da mata e das montanhas para apreciar.

Bromélia do tipo Quesnelia (Quesnelia arvevensis), no início da área do Parque Nacional da Bocaina.

No início, a pista é de asfalto, bem sombreada pela exuberância da mata atlântica. Mesmo numa segunda-feira, há tráfego intenso de veículos, com o comportamento habitual do Brasil selvagem: embora minoritária, parte dos motoristas vê o ciclista como mero obstáculo. Na minha amostragem pessoal, vejo um padrão: carros velhos, precisando de pintura e carros caros, como Audi e Mercedes, principalmente modelos esporte, são os que tiram as piores “finas”. Não é nada científico, mas a hipótese mais provável é que os que mais vêm o automóvel como status (tendo-o ou invejando-o) são os que poderão nos atropelar um dia. Portanto, viu um Corsa velho, cuidado; se vem um Audi esporte, cuide-se!

Início da subida, ainda com pouca inclinação.

A subida começa com inclinações suaves a médias, mas que vão se acentuando mais e mais. Na minha opinião, as ladeiras mais “empurráveis” do percurso estão nesta parte asfaltadas, mas, a cerca 8,5Km de trajeto, inicia-se o trecho calçado com lajotas, que vai até o topo, na divisa RJ-SP. É a parte mais agradável da subida, embora também tenha vários trechos “empurráveis”. O panorama vai desfilando a mata exuberante e alguns mirantes, de onde se avista a baixada de Paraty, cada vez mais distante.

Mudança do asfalto para calçamento de lajotas no Km 8,5.
Flores, ainda não identificadas, à beira do caminho

Às 11:56h, aí pela metade do trecho de asfalto, encontrei o primeiro mirante, ao lado do atelier de um escultor. O ar estava pesado de umidade, mas pode-se distinguir a cidade e, além da baía, os montes pelos quais passamos de carro, na chegada a Paraty.

Mirante, atelier do escultor e uma bica d’água.

Às 13:10h, passei pelo ponto de chegada da Trilha do Ouro, que pode ser percorrida à pé (não é ciclável), a partir da estrada da pedra da Macela (alto da serra de Cunha) até aqui. Um pouco depois, por volta de 13:15, fiz uma parada de uns vinte minutos para o almoço, que consistiu de dois pequenos sanduíches de queijo (regalo da Cacá), uma paçoca e, de sobremesa, um docinho de banana.

Ponto de chegada da Trilha do Ouro
Vista do meu local de almoço

Antes das 14h, já estava eu de volta ao pedal e à interminável subida. O tráfego constante tornava impossível a presença dos animais da floresta, mas ainda se via um ou outro pássaro, como este que, tímido, não se mostrou de frente nenhuma vez.

As vistas desta parte da estrada são difíceis de descrever. Muitas formas, tons de verde, flores. Melhor ver.

Vistas da mata e marco da ER na subida da serra.

Neste trecho do Parque Nacional, distribuídas estrategicamente, há quatro passagens elevadas para os animais, especialmente os micos e outros tipos de macacos que são nômades e correm risco frequente de atropelamento. Me parece que seria melhor, além das passagens, impedir o trânsito de veículos à noite, como foi feito na serra de Ubatuba, mas não há sinal nem de fiscalização por aqui. Vi até caminhões, que são na teoria proibidos, transitando livremente.

Uma das quatro passagens elevadas para animais, no trecho do parque nacional.
Trecho sinuoso da subida da serra.

Na única parte da subida em que a mata fechada abre espaço para campina e araucárias, havia também uma moita florida, com jeito de lavanda.

Campina dura pouco. Logo depois, volta a unipresente mata atlântica e, adiante, mais um mirante.

Mirante que parei para admirar às 15:30h.

Uns 15min depois, mais uma surpresa. Há uma pequena área delimitada, ao lado da pista, com uma plaquinha do Iphan, que identifica o local como sítio arqueológico. Sem maiores explicações.

Olhando mais de perto, dá para perceber que se trata de uma espécie de calçamento, formado por blocos grandes e achatados de pedra. Desconfio que se trate de um trecho remanescente do piso original da Estrada Real. Peço para quem saiba melhor nos esclarecer.

Possível remanescente do calçamento original da Estada Real.

Finalmente, faltando 4min para as 4h da tarde, cheguei ao topo da serra, onde a divisa de estados também marca a volta do piso de asfalto e a tradicional colagem de adesivos na placa da divisa. O meu ficou enfeitando o “e” de “Janeiro”.

Placa da divisa, coberta de adesivos, agora também com o meu.

A descida e a luz do dia

Nesta altura da viagem, eu já começava a pensar no tempo de luz diurna que restava, pouco mais de duas horas. Contava, para ajudar, com a predominância de descidas no percurso restante.

No começo, as inclinações pareciam corresponder aos meus desejos. Há uma longa e íngreme descida, com asfalto bem conservado. Dá para soltar os freios, com cuidado por causa das curvas constantes. Parei, por aí, só por uma bela árvore e a cascata famosa do alto da serra.

No final deste ótimo trecho de descidas, há um restaurante chamado Kalas da Serra, com uma linda plantação de copos de leite.vejam só.

Plantação de copos de leite, ao lado de um restaurante.

Uns trezentos metros após o restaurante, o trajeto da ER deixa o asfalto da rodovia, numa saída à direita que não está indicada por marco (até onde pude verificar). Segue, então, por estrada de chão, onde o ciclista deve ter a maior atenção e, se possível, levar GPS com o percurso carregado, porque há várias bifurcações e encruzilhadas sem nenhuma sinalização, seja pelo totem ou qualquer outro aviso. Numa delas, o totem ER está deitado ao chão, do lado oposto da estrada onde deveria estar. Numa situação assim é muito fácil pegar a direção errada. Em dúvida, melhor optar pela rodovia, onde não há risco de perder-se.

Descida? —Bem, nem sempre. O restante do trajeto, em terra até os últimos 3 Km, alterna descidas sinuosas com subidas um tanto exasperantes para quem já está exausto e ademais preocupado com a chegada iminente da noite. As paisagens, por outro lado, prosseguem numa beleza, só que de outro tipo, posto que a mata dá lugar a fazendas, pastos e chácaras.

Bosque com eucaliptos e araucárias, em Cunha, SP.

Paro para fotografar um bosque, bem representativo da região (acima), e olho as horas no GPS. São 16:43h, um pouco menos de uma hora e meia para o anoitecer. Me prometo não parar mais para fotografar, mas, logo em seguida, me deparo com esta cena, repleta de nuances da luz do final de tarde. Não consegui não parar.

Agora, 17:10h, eu tinha somente uma hora para chegar à cidade com luz do dia. Será que o peso de um bom farol vale a pena, para evitar este tipo de perrengue? —Eu ainda penso que não. Se, de fato, achasse este risco tão grande, poderia ter ficado numa das pousadas do alto da serra, na rodovia, que começam a aparecer após o restaurante dos copos de leite.

Assim sendo e pensando, não evitei mesmo de parar mais algumas vezes, para registrar as lânguidas ondulações da serra.

Contornos do alto da serra à luz do poente.

Ainda dei alguns instantes, adiante, para registrar o reservatório de captação de água de Cunha e a cascata que a ele segue, no rio Jacuí, que adiante forma a bela cachoeira do Pimenta, que fotografei na passagem do primeiro ciclo que fiz na ER, entre 2018 e 2020.

Mas, a hora fatídica do por-do-sol chegou, 18:10, e eu estava ainda a 3Km do destino. Apesar disso, parei por uma última vez para registrar o fim do dia.

Contorno de serra ao por-do-sol, a 3Km do centro de Cunha.

Cheguei à primeira rua iluminada da área urbana às 18:13h, ainda com alguma claridade do dia. Missão cumprida. Só mais um Km, em ruas iluminadas, até o centro. Foi hora de perceber o quanto eu estava cansado. Parei para tomar um Gatorade e rumei ao centro. Comi um lanche na Doceria da Cidinha, onde aproveitei para pegar carimbo da ER e procurei no mapa uma pousada para descansar. Término da jornada só às oito da noite. Descanso, afinal!


Informações técnicas do pedal

A pedalada no Strava

A pedalada no RideWithGps

A pedalada no Garmin Connect

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